Tem uma coisa em mudar de bairro depois de certa idade: às vezes a gente chega achando que está descobrindo um lugar, mas logo percebe que alguns lugares já chegaram até nós antes.
Foi assim comigo.
O Bom Fim, a Cidade Baixa, o Centro Histórico... alguns desses nomes já existiam na minha vida antes deste endereço. Não exatamente como rotina, mas como lembranças de lugares onde estive, de noites que vivi, de histórias que aconteceram antes de eu imaginar que um dia estaria morando tão perto.
E talvez por isso eu tenha demorado um pouco para saber como caminhar por aqui.
Tem lugares que não são simplesmente lugares.
A escadaria da Borges, por exemplo, parece ter uma personalidade diferente a cada dia. Tem o samba das terças-feiras, mas também tem música latina em outros dias, rock em outro, e tantos outros sons ocupando aquele espaço. A escadaria muda de ritmo conforme a noite, como se a cidade encontrasse ali um jeito de se reunir sem precisar de muito.
A Casa de Cultura Mario Quintana tem seus filmes, seus corredores, suas janelas. A Travessa dos Venezianos tem seus bares e a música autoral que aparece por ali. E tem o Odeon, onde ouvi jazz uma vez, sentado ao lado de alguém que me apresentou aquele lugar.
Eu poderia simplesmente dizer que descobri tudo isso.
Mas não seria verdade.
Algumas dessas portas foram abertas para mim por outra pessoa.
E existe uma sensação nisso. Como se eu estivesse andando por uma cidade que já tem pequenas marcas de alguém antes de ter as minhas.
Não é exatamente nostalgia.
Também não é vontade de repetir.
É mais uma espécie de cuidado.
Porque não quero transformar em meu aquilo que pertence à história de outra pessoa. Não quero fingir que conheço uma cidade só porque alguém me mostrou alguns de seus cantos.
Talvez o que eu possa fazer seja mais simples: reconhecer que fui apresentado a eles e, daqui para frente, deixar que cada lugar encontre um significado diferente em mim.
O samba da terça-feira pode continuar sendo o samba de quem já o conhecia antes de mim.
A música latina de sexta pode ser apenas uma possibilidade que ainda vou experimentar.
O rock pode me levar para outro lugar.
O jazz do Odeon pode continuar tendo aquela primeira noite como memória.
A Casa de Cultura pode continuar guardando os filmes que já assisti.
A Travessa pode continuar cheia de músicas que ainda não conheço.
Nada disso precisa ser apagado para que eu possa estar aqui.
Porque talvez morar perto seja justamente isso: começar a construir uma relação própria com lugares que já existiam muito antes da gente.
A cidade não começa quando chegamos.
Ela já estava aqui.
Com suas histórias, seus personagens, seus hábitos, seus encontros e desencontros. A gente chega depois e, se tiver sorte, encontra algum espaço entre essas histórias para colocar algumas linhas nossas.
Tenho pensado nisso enquanto caminho pelo bairro.
Às vezes reconheço um lugar.
Às vezes lembro de quem me mostrou.
Às vezes simplesmente passo adiante.
E acho bonito que seja assim.
Não preciso reivindicar esses lugares.
Posso apenas frequentá-los quando fizer sentido, descobrir outros que ainda não conheço e, aos poucos, deixar que a cidade também me aconteça.
Talvez seja essa a diferença entre morar em um lugar e construir uma história nele.
Não é ocupar todos os espaços.
É encontrar alguns que, com o tempo, passem a ter alguma coisa nossa também.
Afinal, ninguém chega primeiro a uma cidade.
A gente apenas chega.
E começa, devagar, a deixar alguns passos por onde tantos outros já passaram.


