Me mudei tem alguns dias para um apartamento perto do trabalho. E quando digo perto, é perto mesmo: menos de cinco minutos de caminhada leve, tranquila, sem correria. Mudei meu horário de entrada, otimizei o sono, reorganizei a rotina. Almoço em casa todos os dias e ainda consigo sestear até cinco minutos antes do segundo turno.
Pode parecer pouca coisa dito
assim, em uma frase. Mas foi tudo se encaixando depois de muito tempo de desencaixe.
Durante anos, o deslocamento foi
um “imposto” invisível que eu pagava sem perceber. Aquele tempo que some entre sair
de casa e sentar na cadeira do trabalho... o trânsito, a espera, o corpo já
cansado antes de o dia começar. A gente se acostuma... Acha que é assim mesmo,
que faz parte. Até o dia em que não é mais, e tu olha pra trás e pensa: quanto
tempo de vida eu deixei pelo caminho?
Agora o caminho é um percurso
curto. Saio de casa e, antes de a música da caminhada terminar, já cheguei.
Sobra manhã. Sobra tarde. Sobra aquele intervalo do meio-dia que virou algo
sagrado... almoço na minha própria cozinha, uma sesta curta, e a sensação de ter dois começos no mesmo dia. É luxo? É. Um luxo desses que não cabem em
foto, mas que mudam o contexto de tudo.
E tem o lado de fora, que é quase
bom demais pra ser verdade.
Estou perto da Redenção... aquele
pulmão verde onde a cidade respira nos fins de semana, com a feira, os
corredores, os cachorros, a preguiça coletiva de domingo. Perto da Cidade Baixa
e do Bom Fim, que a qualquer hora têm uma mesa de bar, um som, uma conversa
acontecendo. Perto do Centro Histórico, com suas fachadas que contam histórias
pra quem tem paciência de olhar pra cima.
Descobri que morar perto de tudo
muda o jeito como a gente habita a cidade. Deixa de ser um lugar que se
atravessa de carro, apressado, e vira um lugar que se percorre a pé, no ritmo
de quem tem tempo. Tu começa a notar coisas... a padaria da esquina, o gato que
dorme sempre na mesma janela, o vizinho que rega as plantas de manhã. A cidade
fica menor e mais íntima ao mesmo tempo.
Nada disso seria tão bom se não
fosse pela parte que menos aparece na lista.
Estou perto da casa da minha
primogênita. Perto dos amigos queridos, aqueles de sempre, os que fazem a
diferença entre morar em um lugar e pertencer a ele. Porque no fim o que
transforma um endereço em casa não é a metragem, não é a planta, não é a vista.
É a distância até as pessoas.
Um apartamento perto do trabalho
me devolveu tempo. Um apartamento perto dos que amo me devolveu presença. E são
coisas diferentes, embora a gente só perceba quando as duas voltam juntas.
Ainda estou desempacotando
caixas. Tem quadro pra pendurar, gaveta pra organizar, aquele canto que ainda
não sei o que vai ser. Mas já sei de uma coisa... essa mudança não foi sobre
trocar de endereço. Foi sobre reencontrar um ritmo. Sobre acordar sem pressa,
almoçar em casa, sestear sem culpa e saber que, a poucos passos, tem gente e
cidade e vida esperando.
Perto de tudo. E, pela primeira vez em muito tempo, perto de mim também.


