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Victor Hugo

terça-feira, 25 de agosto de 2026

.lugares que já tinham história.

Tem uma coisa em mudar de bairro depois de certa idade: às vezes a gente chega achando que está descobrindo um lugar, mas logo percebe que alguns lugares já chegaram até nós antes.

Foi assim comigo.

O Bom Fim, a Cidade Baixa, o Centro Histórico... alguns desses nomes já existiam na minha vida antes deste endereço. Não exatamente como rotina, mas como lembranças de lugares onde estive, de noites que vivi, de histórias que aconteceram antes de eu imaginar que um dia estaria morando tão perto.

E talvez por isso eu tenha demorado um pouco para saber como caminhar por aqui.

Tem lugares que não são simplesmente lugares.

A escadaria da Borges, por exemplo, parece ter uma personalidade diferente a cada dia. Tem o samba das terças-feiras, mas também tem música latina em outros dias, rock em outro, e tantos outros sons ocupando aquele espaço. A escadaria muda de ritmo conforme a noite, como se a cidade encontrasse ali um jeito de se reunir sem precisar de muito.

A Casa de Cultura Mario Quintana tem seus filmes, seus corredores, suas janelas. A Travessa dos Venezianos tem seus bares e a música autoral que aparece por ali. E tem o Odeon, onde ouvi jazz uma vez, sentado ao lado de alguém que me apresentou aquele lugar.

Eu poderia simplesmente dizer que descobri tudo isso.

Mas não seria verdade.

Algumas dessas portas foram abertas para mim por outra pessoa.

E existe uma sensação nisso. Como se eu estivesse andando por uma cidade que já tem pequenas marcas de alguém antes de ter as minhas.

Não é exatamente nostalgia.

Também não é vontade de repetir.

É mais uma espécie de cuidado.

Porque não quero transformar em meu aquilo que pertence à história de outra pessoa. Não quero fingir que conheço uma cidade só porque alguém me mostrou alguns de seus cantos.

Talvez o que eu possa fazer seja mais simples: reconhecer que fui apresentado a eles e, daqui para frente, deixar que cada lugar encontre um significado diferente em mim.

O samba da terça-feira pode continuar sendo o samba de quem já o conhecia antes de mim.

A música latina de sexta pode ser apenas uma possibilidade que ainda vou experimentar.

O rock pode me levar para outro lugar.

O jazz do Odeon pode continuar tendo aquela primeira noite como memória.

A Casa de Cultura pode continuar guardando os filmes que já assisti.

A Travessa pode continuar cheia de músicas que ainda não conheço.

Nada disso precisa ser apagado para que eu possa estar aqui.

Porque talvez morar perto seja justamente isso: começar a construir uma relação própria com lugares que já existiam muito antes da gente.

A cidade não começa quando chegamos.

Ela já estava aqui.

Com suas histórias, seus personagens, seus hábitos, seus encontros e desencontros. A gente chega depois e, se tiver sorte, encontra algum espaço entre essas histórias para colocar algumas linhas nossas.

Tenho pensado nisso enquanto caminho pelo bairro.

Às vezes reconheço um lugar.

Às vezes lembro de quem me mostrou.

Às vezes simplesmente passo adiante.

E acho bonito que seja assim.

Não preciso reivindicar esses lugares.

Posso apenas frequentá-los quando fizer sentido, descobrir outros que ainda não conheço e, aos poucos, deixar que a cidade também me aconteça.

Talvez seja essa a diferença entre morar em um lugar e construir uma história nele.

Não é ocupar todos os espaços.

É encontrar alguns que, com o tempo, passem a ter alguma coisa nossa também.

Afinal, ninguém chega primeiro a uma cidade.

A gente apenas chega.

E começa, devagar, a deixar alguns passos por onde tantos outros já passaram.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

.os que sempre estiveram perto.

Uma coisa que só percebi depois de mudar para um lugar onde tudo é perto... a cidade é feita de quase-encontros.

Gente que dividiu a mesma calçada por anos sem se ver. Que esperou o mesmo sinal fechar, do mesmo lado da rua, em manhãs diferentes. Que frequentou a mesma padaria em horários que nunca se tocaram... um chegando quando o outro acabava de sair, o cheiro do café ainda no ar como um bilhete que ninguém leu.

A gente acha que conhece as pessoas por proximidade. Mas morar perto e se conhecer são coisas completamente diferentes, e às vezes leva uma vida inteira pra uma virar a outra.

Cada pessoa que anda por um bairro vai deixando um rastro invisível. A esquina onde sempre para. O banco da praça que virou o teu. O trajeto que os pés já fazem sozinhos, sem consultar a cabeça. E esses rastros se sobrepõem o tempo todo, sem que ninguém saiba.

Tu e a pessoa que um dia vai ser importante na tua vida talvez já tenham pisado no mesmo pedaço de chão dezenas de vezes. Talvez tenham se protegido da mesma chuva sob a mesma marquise, em tardes separadas por meses. Talvez tenham torcido o nariz pra mesma poça, admirado a mesma árvore florida, se irritado com o mesmo buraco na calçada.

 Estavam perto. Só não estavam juntos ainda.

O que mais me encanta é quando duas pessoas finalmente se conhecem e descobrem, no meio da conversa, que moram na mesma quadra há anos. Que o filho de um estudou com o filho do outro. Que frequentam o mesmo bar, só que em dias trocados. Que têm um amigo em comum que nunca pensou em apresentá-los.

Aí vem o espanto: "como a gente nunca se viu?"

E a resposta é quase sempre a mesma... a distância nunca foi de metros. Era de tempo, de horário, de acaso. Estavam separados por cinco minutos, não por cinco quilômetros. Por uma esquina que um virava à direita e o outro à esquerda. Por hábitos que corriam em paralelo, tão perto que quase se tocavam, mas nunca se cruzavam.

Quando enfim se encontram, é como se a cidade ou o destino tivesse guardado aquele encontro na manga esse tempo todo, esperando a hora certa de entregar.

Gosto de pensar que as ruas têm memória. Que as calçadas registram cada passo, cada história que passou por ali, e vão costurando, devagarinho, os fios que um dia vão se amarrar.

Os bares, as praças, as feiras de domingo da Redenção... não são só cenário. São lugares onde os caminhos invisíveis finalmente se cruzam, onde o "quase" vira "enfim". Onde alguém com quem tu já dividia a cidade sem saber, de repente, senta na mesa ao lado e puxa conversa.

Morar perto de tudo me fez perceber isso com mais nitidez. Toda vez que caminho pela vizinhança, penso em quantas histórias estão ali, dobradas nas esquinas, esperando. Quantas pessoas eu já cruzei sem saber. Quantos futuros amigos, ou pessoas queridas, estão neste exato momento a poucos passos, andando por uma calçada paralela à minha.

A gente vive achando que os encontros importantes vêm de longe. Mas muitos deles sempre estiveram aqui do lado... só faltava o tempo alinhar, a esquina coincidir, a cidade ou o destino decidir que agora era a hora.

Porque no fundo sempre estivemos mais perto do que imaginávamos. Só levou um tempinho pra descobrir.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

.perto de tudo (inclusive de mim).

Me mudei tem alguns dias para um apartamento perto do trabalho. E quando digo perto, é perto mesmo: menos de cinco minutos de caminhada leve, tranquila, sem correria. Mudei meu horário de entrada, otimizei o sono, reorganizei a rotina. Almoço em casa todos os dias e ainda consigo sestear até cinco minutos antes do segundo turno.

Pode parecer pouca coisa dito assim, em uma frase. Mas foi tudo se encaixando depois de muito tempo de desencaixe.

Durante anos, o deslocamento foi um “imposto” invisível que eu pagava sem perceber. Aquele tempo que some entre sair de casa e sentar na cadeira do trabalho... o trânsito, a espera, o corpo já cansado antes de o dia começar. A gente se acostuma... Acha que é assim mesmo, que faz parte. Até o dia em que não é mais, e tu olha pra trás e pensa: quanto tempo de vida eu deixei pelo caminho?

Agora o caminho é um percurso curto. Saio de casa e, antes de a música da caminhada terminar, já cheguei. Sobra manhã. Sobra tarde. Sobra aquele intervalo do meio-dia que virou algo sagrado... almoço na minha própria cozinha, uma sesta curta, e a sensação de ter dois começos no mesmo dia. É luxo? É. Um luxo desses que não cabem em foto, mas que mudam o contexto de tudo.

E tem o lado de fora, que é quase bom demais pra ser verdade.

Estou perto da Redenção... aquele pulmão verde onde a cidade respira nos fins de semana, com a feira, os corredores, os cachorros, a preguiça coletiva de domingo. Perto da Cidade Baixa e do Bom Fim, que a qualquer hora têm uma mesa de bar, um som, uma conversa acontecendo. Perto do Centro Histórico, com suas fachadas que contam histórias pra quem tem paciência de olhar pra cima.

Descobri que morar perto de tudo muda o jeito como a gente habita a cidade. Deixa de ser um lugar que se atravessa de carro, apressado, e vira um lugar que se percorre a pé, no ritmo de quem tem tempo. Tu começa a notar coisas... a padaria da esquina, o gato que dorme sempre na mesma janela, o vizinho que rega as plantas de manhã. A cidade fica menor e mais íntima ao mesmo tempo.

Nada disso seria tão bom se não fosse pela parte que menos aparece na lista.

Estou perto da casa da minha primogênita. Perto dos amigos queridos, aqueles de sempre, os que fazem a diferença entre morar em um lugar e pertencer a ele. Porque no fim o que transforma um endereço em casa não é a metragem, não é a planta, não é a vista. É a distância até as pessoas.

Um apartamento perto do trabalho me devolveu tempo. Um apartamento perto dos que amo me devolveu presença. E são coisas diferentes, embora a gente só perceba quando as duas voltam juntas.

Ainda estou desempacotando caixas. Tem quadro pra pendurar, gaveta pra organizar, aquele canto que ainda não sei o que vai ser. Mas já sei de uma coisa... essa mudança não foi sobre trocar de endereço. Foi sobre reencontrar um ritmo. Sobre acordar sem pressa, almoçar em casa, sestear sem culpa e saber que, a poucos passos, tem gente e cidade e vida esperando.

Perto de tudo. E, pela primeira vez em muito tempo, perto de mim também.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

.das coisas simples.

Tenho aprendido a não guardar tudo o que passa por mim... algumas coisas ficam, outras cumprem seu papel e seguem sendo parte da história. Hoje eu prefiro o que é simples... um dia comum que deu certo, uma boa conversa, um plano que ainda pode mudar sem perder o sentido. 

Não preciso de grandes acontecimentos pra saber que a vida acontece. Às vezes ela está inteira numa mesa com duas xícaras, numa ideia rabiscada, numa risada fora dehora. 

E talvez seja isso... não esperar que tudo combine, mas perceber, de "vezenquando", que algumas peças já estão no lugar. Eu sigo gostando do que vem, do que invento pelo caminho, do que ainda não sei explicar. 

Tem coisa que não precisa durar para ter valido a pena. 

E tem coisa que fica só porque fez bem ficar.



domingo, 16 de agosto de 2026

.algumas histórias continuam procurando uma mesa.

 


Há lugares que a gente acredita ter deixado para trás.

Lugares que ficam guardados em alguma gaveta da memória, junto com fotografias antigas, músicas que marcaram uma época e conversas que nunca terminamos.

Mas alguns lugares são diferentes.

Eles não acabam.

Eles apenas esperam.

O VezenquandoPub nasceu assim: de uma mesa solitária, de uma vontade de escrever, de uma necessidade quase inexplicável de colocar em palavras aquilo que passava pela alma.

Era um lugar para divagar sobre a vida.

E, como acontece nas melhores histórias, alguém chegou.

Depois outro alguém.

E mais outro.

De repente, aquela mesa já não era mais minha. Havia vozes diferentes, histórias diferentes, risadas diferentes. O pub ganhou novas mesas, novos frequentadores e novas conversas.

As amizades ultrapassaram fronteiras e tudo acabou em uma mesa de bar.

O tempo passou.

Nós também passamos.

A vida nos chamou para outros lugares, outras escolhas, outros caminhos. Algumas cadeiras ficaram vazias. Algumas mesas ficaram em silêncio.

Mas o curioso sobre as histórias é que elas não precisam de quem escreveu para continuar existindo.

Elas encontram seus próprios caminhos.

Enquanto não estávamos sentados às nossas mesas, alguém, em algum lugar, ainda entrava pela porta.

Alguém lia uma antiga conversa.

Alguém encontrava uma palavra.

Alguém se reconhecia em uma história escrita há anos.

E talvez essa seja a magia deste Pub:

ele nunca fechou.

Nós é que, por algum tempo, não estivemos sentados nas nossas mesas.

Hoje voltamos a ocupar algumas cadeiras.

Não para tentar recuperar o tempo que passou, porque o tempo não volta.

Voltamos para continuar a conversa.

Porque algumas mesas guardam marcas de antigos encontros.

Algumas esperam novas histórias.

E algumas pessoas, mesmo depois de tantos anos, ainda sabem exatamente o caminho até o balcão.

O VezenquandoPub continua aberto.

A luz continua acesa.

A mesa continua posta.

E, como sempre, a próxima história começa quando alguém decide sentar.

Bem-vindos novamente.

A casa continua aberta.