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Victor Hugo

terça-feira, 18 de agosto de 2026

.perto de tudo (inclusive de mim).

Me mudei tem alguns dias para um apartamento perto do trabalho. E quando digo perto, é perto mesmo: menos de cinco minutos de caminhada leve, tranquila, sem correria. Mudei meu horário de entrada, otimizei o sono, reorganizei a rotina. Almoço em casa todos os dias e ainda consigo sestear até cinco minutos antes do segundo turno.

Pode parecer pouca coisa dito assim, em uma frase. Mas foi tudo se encaixando depois de muito tempo de desencaixe.

Durante anos, o deslocamento foi um “imposto” invisível que eu pagava sem perceber. Aquele tempo que some entre sair de casa e sentar na cadeira do trabalho... o trânsito, a espera, o corpo já cansado antes de o dia começar. A gente se acostuma... Acha que é assim mesmo, que faz parte. Até o dia em que não é mais, e tu olha pra trás e pensa: quanto tempo de vida eu deixei pelo caminho?

Agora o caminho é um percurso curto. Saio de casa e, antes de a música da caminhada terminar, já cheguei. Sobra manhã. Sobra tarde. Sobra aquele intervalo do meio-dia que virou algo sagrado... almoço na minha própria cozinha, uma sesta curta, e a sensação de ter dois começos no mesmo dia. É luxo? É. Um luxo desses que não cabem em foto, mas que mudam o contexto de tudo.

E tem o lado de fora, que é quase bom demais pra ser verdade.

Estou perto da Redenção... aquele pulmão verde onde a cidade respira nos fins de semana, com a feira, os corredores, os cachorros, a preguiça coletiva de domingo. Perto da Cidade Baixa e do Bom Fim, que a qualquer hora têm uma mesa de bar, um som, uma conversa acontecendo. Perto do Centro Histórico, com suas fachadas que contam histórias pra quem tem paciência de olhar pra cima.

Descobri que morar perto de tudo muda o jeito como a gente habita a cidade. Deixa de ser um lugar que se atravessa de carro, apressado, e vira um lugar que se percorre a pé, no ritmo de quem tem tempo. Tu começa a notar coisas... a padaria da esquina, o gato que dorme sempre na mesma janela, o vizinho que rega as plantas de manhã. A cidade fica menor e mais íntima ao mesmo tempo.

Nada disso seria tão bom se não fosse pela parte que menos aparece na lista.

Estou perto da casa da minha primogênita. Perto dos amigos queridos, aqueles de sempre, os que fazem a diferença entre morar em um lugar e pertencer a ele. Porque no fim o que transforma um endereço em casa não é a metragem, não é a planta, não é a vista. É a distância até as pessoas.

Um apartamento perto do trabalho me devolveu tempo. Um apartamento perto dos que amo me devolveu presença. E são coisas diferentes, embora a gente só perceba quando as duas voltam juntas.

Ainda estou desempacotando caixas. Tem quadro pra pendurar, gaveta pra organizar, aquele canto que ainda não sei o que vai ser. Mas já sei de uma coisa... essa mudança não foi sobre trocar de endereço. Foi sobre reencontrar um ritmo. Sobre acordar sem pressa, almoçar em casa, sestear sem culpa e saber que, a poucos passos, tem gente e cidade e vida esperando.

Perto de tudo. E, pela primeira vez em muito tempo, perto de mim também.

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